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“Não troco meu “Oxente” pelo “ok” de ninguém” – Ariano Suassuna

domingo, 10 de novembro de 2013

Garra e superação: Bibliotecária natural de Aguiar-PB, ultrapassou os próprios limites depois de ficar cega. Confira!


“Dizem que a vida é para quem sabe viver, mas ninguém nasce pronto. A vida é para quem é corajoso o suficiente para se arriscar e humilde o bastante para aprender”, essa frase de Clarice Lispector poderia ilustrar a trajetória da bibliotecária da Universidade Estadual da Paraíba, Ana Lúcia Leite, desde que um incidente inexplicável a fez perder a visão aos 20 anos de idade e mudou o rumo de sua vida, fazendo surgir a coragem, para superar as barreiras que surgiram, e humildade, para reaprender a viver com as limitações impostas pela deficiência visual.

A paraibana, natural do município de Aguiar, localizada na região do Vale do Piancó, foi dormir enxergando e acordou cega, após um descolamento de retina que nenhum dos médicos consultados na época conseguiu explicar a causa.

“Eu entrei numa depressão profunda, não via mais sentido na vida. Essa fase eu julgo como a mais difícil da minha vida, eu tive que reaprender tudo novamente, foi muito difícil”, relembra Ana Lúcia.

Após a perda da visão a jovem, que até então não ia além dos limites da cidadezinha do interior em que vivia, partiu com toda a família para capital paraibana com a perspectiva de encontrar apoio e reaprender a viver com as novas limitações. “Na cidade onde morávamos a escola só oferecia ensino até a 8ª série. Quando terminávamos era preciso ir para uma cidade maior para continuar estudando. Como eu não tinha coragem de partir sem minha mãe eu já tinha desistido de seguir os estudos. Mas, quando eu perdi a visão, minha mãe, professora aposentada, resolveu procurar uma forma de me apoiar para que eu pudesse continuar vivendo e nos mudamos pra João Pessoa. Essa mudança foi boa para meus oito irmãos, que tiveram uma oportunidade de estudar e crescer na vida. Por intermédio de uma vizinha ficamos sabendo do trabalho do Instituto dos Cegos e lá eu aprendi a viver com essa minha limitação. Até então eu não me aceitava cega, e só através do Instituto e da FUNAD (Fundação de Apoio ao Deficiente), eu passei por uma reabilitação, aprendi o sistema braile em uma semana e voltei a ler novamente, aprendi a usar as tecnologias e iniciei uma nova trajetória em minha vida”, recorda.

Ana Lúcia destaca que, após a perda da visão passou por uma ressignificação da vida e dos valores que tinha, aprimorou os outros sentidos e procurou superar as dificuldades buscando o lado bom da vida que ela poderia desfrutar. “É uma diferença imensa! Além da questão de limitação, tem o colorido da vida que a gente não vê, mas, em compensação, a gente começa a perceber coisas que quando enxergamos não percebemos. Eu amo o mar, eu me sinto bem quando eu caminho, mergulho no mar, e tem coisas que eu sinto hoje que na época que eu via eu não aproveitava. Eu só me prendia ao visual, hoje eu paro pra sentir a brisa, o cheiro das coisas, a gente desenvolve os outros sentidos. Além disso, antes eu era impaciente, eu não tinha tempo de parar, ajudar as pessoas, só queria curtir a vida. Depois que eu ceguei eu aprendi a ter mais paciência, a escutar mais as pessoas e eu me sinto mais útil hoje em dia”, avalia Ana Lúcia.

Além das mudanças de perspectiva diante da vida e limitações físicas, a bibliotecária lembra que sofreu com o afastamento de amigos, namorado, que não sabiam como conviver com a nova realidade. “A maioria dos amigos se afasta. Quando te vê ficam com pena, chorando, eram companheiros de lamentação”, afirma.

No instituto dos cegos Ana conheceu o seu atual marido, cego desde os 6 meses de idade, por quem sentiu o que chama de “amor à primeira voz”. Casou e teve um filho, hoje com 14 anos de idade. Mas, o caminho de superação de Ana Lúcia não se restringiu à vida pessoal. Após descobrir que era possível estudar e trabalhar mesmo com as limitações a jovem deu prosseguimento à carreira acadêmica e conquistou seu espaço profissional no mercado.

“Fiz um teste no Instituto de Educação da Paraíba, fui aprovada e terminei o pedagógico. Prestei vestibular na Universidade Federal, para o curso de Biblioteconomia. Escolhi esse curso justamente porque nessa época, em 1994, tinha poucos livros específicos para o deficiente visual, não existiam bibliotecas em braile, acervos acessíveis. Já na faculdade eu encontrei professores muito bons, com interesse de passar conteúdo, que acreditavam no meu potencial, mas, eu também enfrentei muitas barreiras, tanto arquitetônicas como atitudinais. Alguns professores não acreditavam que, por eu ser cega, eu poderia realizar algumas tarefas ou ir mais longe. Eu imaginava que na academia iria encontrar pessoas com a cabeça mais aberta e que soubessem lidar com as diferenças, o que foi um engano, uma decepção grande. Outra decepção foi em relação ao acervo. Eu achava que na universidade ía ter um acesso melhor à informação, mas não tinha, o setor braile era limitado, não existia um único livro na minha área que fosse adaptado ao meu acesso”, lembrou.

Apesar das dificuldades Ana Lúcia conseguiu concluir a graduação em Biblioteconomia, partindo logo após a defesa da monografia para a maternidade, onde nasceu seu filho Gabriel, o que ela chama de “melhor diploma” que poderia conseguir.  Também cursou a Especialização em bibliotecas escolares e acessibilidade pela Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), na qual desenvolveu um Trabalho de Conclusão de Curso sobre Tecnologias Acessíveis ao deficiente visual; e especialização em Psicopedagogia pelas Faculdades Integradas de Patos (FIP).

No campo profissional atuou com Telemarketing, em Bibliotecas de Instituições públicas do Estado, organizações não governamentais, buscando organizar os acervos e torná-los acessíveis. Foi professora de Informática na Fundação Centro Integrado de Apoio ao Portador de Deficiência (FUNAD) de 1996 a 2007. Em 2007, prestou concursos para atuar como docente nas prefeituras de João Pessoa e Bayeux, e na UEPB. Foi aprovada em todas as seleções, mas, optou pela carreira de técnica administrativa da UEPB, onde está desde 2008. Na instituição realiza um trabalho com a recuperação, organização e disseminação acessível da informação através do uso do serviço Braille e das ferramentas tecnológicas para o acesso à informação.

Atualmente, Ana Lúcia concilia o trabalho na UEPB com as atividades no Instituto dos Cegos da Paraíba, onde está desde 1997 e exerce a função de vice-presidente. Tanto na UEPB, com a busca de formas de tornar o acervo da biblioteca acessível, como no Instituto dos Cegos, auxiliando pessoas cegas na reabilitação, Ana Lúcia segue lutando por melhores condições de vida para esse grupo que, de acordo com dados do Censo do IBGE de 2010, abrange 18,8% da população brasileira.

Uma das bandeiras defendidas pela bibliotecária é o fornecimento de livros em formato digital, algo que é permitido para uso exclusivo de pessoas com deficiência visual e facilitaria os estudos e o acesso ao acervo por parte desse público. “É obrigação de todas as bibliotecas serem acessíveis a todos, e eu tenho desenvolvido alguns projetos e buscado formas de diálogo com os gestores no intuito de viabilizar esse objetivo”, destaca.

A bibliotecária responsável pela Biblioteca do Campus V, em que Ana Lúcia trabalha, Liliane Braga, enfatiza o empenho e dedicação da servidora que é querida pelos colegas e se tornou um exemplo para todos. “Ela é muito batalhadora, está sempre de bom humor, e nos fez perceber o quanto precisávamos melhorar nosso espaço e o nosso acervo para pessoas com deficiência. Hoje todos nós estamos junto com ela nessa luta por acessibilidade”, afirmou. A auxiliar de biblioteca e amiga, Gizele Martins, acrescenta que, “mesmo diante da falta de sensibilidade de algumas pessoas ao lidar com a colega, Ana nunca se deixou abalar e seguiu encorajando a todos a superar os problemas”.

Ana Lúcia se emociona ao falar do apoio que recebe da equipe de colegas de trabalho, que são o alicerce para que ela consiga crescer cada dia mais. “Esse grupo é fantástico! Choram comigo, lutam comigo, me auxiliam no que preciso, sem eles tudo seria mais complicado”, analisa. A bibliotecária destaca alguns planos para a vida profissional, acadêmica e pessoal, que incluem o principal: ser feliz. “Os obstáculos sempre vão existir, cabe a gente buscar forças pra continuar. Eu acredito que se alguma coisa acontece com a gente não é por acaso. Portanto,  precisamos ter força de vontade, amigos verdadeiros e assim podemos crescer, ser felizes e fazer feliz quem está perto da gente”.

Fonte: UEPB

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